Em novembro de 1944, nos meses finais da Segunda Guerra Mundial, a Royal Academy of Arts, em Londres, organizou uma exposição para apoiar a causa dos Aliados. No entanto, não se tratava de uma mostra de orgulho nacional ou arte antifascista, mas sim de uma apresentação do modernismo brasileiro, organizada pelo estadista Oswaldo Aranha, futuro presidente da Assembleia Geral da ONU. Como parte de uma missão cultural entre Brasil e Reino Unido, beneficiando o Royal Air Force Benevolent Fund, a exposição reuniu mais de 150 obras, sendo que 23 delas foram vendidas como doação para museus britânicos.
Mais de 80 anos depois, o modernismo brasileiro volta a ser tema de uma grande exposição na Royal Academy, intitulada “Brasil! Brasil! O Nascimento do Modernismo”. Desta vez, sem as influências políticas do governo britânico, que em 1944 havia enfrentado dificuldades para hospedar a mostra. A National Gallery e a National Portrait Gallery recusaram a exposição por não terem condições para eventos externos, enquanto a Tate alegou que seus espaços estavam danificados pelos bombardeios da guerra.
“Espero que esta exposição compense, de certa forma, a de 1944 e também ajude a dar visibilidade a artistas pouco conhecidos no Reino Unido”, afirmou Adrian Locke, curador-chefe da Royal Academy, ao ARTnews. Segundo ele, a instituição pode nem ter tido muita escolha ao sediar a mostra original.
Organizada pelo Zentrum Paul Klee, em Berna, na Suíça, em colaboração com a Royal Academy, a exposição estará em exibição até 21 de abril. Locke compartilha a curadoria com Fabienne Eggelhöfer, curadora-chefe do Zentrum, e Roberta Saraiva Coutinho, diretora do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Com 130 obras, “Brasil! Brasil!” amplia o escopo da exposição de 1944, abordando a arte produzida entre 1910 e 1970. O evento destaca nomes como Tarsila do Amaral, Rubem Valentim e Alfredo Volpi, ao lado de artistas menos conhecidos internacionalmente, como Anita Malfatti, considerada a pioneira do modernismo brasileiro; Djanira da Motta e Silva, autodidata de ascendência guarani; Geraldo de Barros, cofundador do Grupo Ruptura do movimento concretista; e Flávio de Carvalho, um dos primeiros artistas performáticos queer do Brasil.
Esse período de 60 anos foi marcado por uma efervescência artística que se estendeu da pintura à arquitetura, da literatura à música. O modernismo se consolidou como um movimento de ruptura com as artes tradicionais da época colonial (1500-1815) e com os retratos, alegorias históricas e paisagens do Período Imperial (1815-1889). Com a proclamação da República em 1889, o Brasil buscava afirmar uma identidade independente e autêntica, refletindo sua diversidade cultural. O modernismo introduziu novas formas de representar o povo e novas técnicas e paletas de cores.
“O interessante é que, ao olharmos para o modernismo brasileiro, percebemos que os artistas começam muito cedo a retratar a resiliência do cotidiano”, explicou Locke. “Há um retrato mais genuíno do país e de sua diversidade. Os artistas se interessam em explorar o Brasil, em vez de reproduzir o estilo europeu. Começam a abraçar a vegetação, a arquitetura e os rostos que representam o que é ser brasileiro”.
Logo na entrada da exposição, um vídeo de cores vibrantes projeta imagens das cidades brasileiras, favelas, florestas e cachoeiras, além de vistas icônicas como o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. A trilha sonora da exposição conduz os visitantes por essa jornada, passando dos sons da floresta e do canto dos pássaros para o ritmo contagiante do samba e da bossa nova.


