O cenário energético brasileiro mostra duas frentes distintas: um sucesso renovado na exploração de petróleo doméstico e um novo desafio estratégico na importação de gás da Argentina, que depende de negociações complexas com a Bolívia.
Sucesso no Leilão Sinaliza Retorno do Interesse no Pré-Sal
O Brasil vendeu cinco dos sete blocos oferecidos em um leilão de petróleo nesta quarta-feira, com participação de gigantes como a Petrobras e a Equinor ASA. O resultado demonstra um interesse renovado na exploração em águas profundas na costa sul do país, mesmo em um cenário de preços baixos do petróleo. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) conseguiu garantir compromissos de investimento apesar das empresas petrolíferas estarem cortando gastos e reduzindo pessoal globalmente.
Novos Atores e o Reaquecimento do Setor
O leilão trouxe surpresas significativas. A empresa australiana Karoon Energy Ltd. arrematou sozinha o bloco Esmeralda. Além disso, as gigantes chinesas CNOOC Ltd. e China Petroleum & Chemical Corp. (Sinopec) venceram um bloco sem parceiros locais. “A rodada de licitações foi um sucesso”, avaliou Marcelo De Assis, consultor independente de petróleo baseado no Rio de Janeiro. “Um bloco operado pela China no pré-sal é inédito.”
A região do pré-sal, cujas descobertas nos anos 2000 impulsionaram o Brasil a se tornar o maior produtor da América Latina, voltou a atrair atenções. A exploração esteve morna por mais de uma década, mas recentes anúncios, como a descoberta Bumerangue pela BP Plc este ano e novos achados da Petrobras no bloco de Aram, mudaram o panorama. “O mais importante é que o pré-sal voltou a esquentar”, disse Pedro Zalan, geólogo e consultor ex-Petrobras. “O pré-sal, onde havia pouco interesse recentemente, ganhou um novo fôlego.”
Apesar do otimismo, uma ausência notável foi a das grandes empresas europeias que operam no Brasil, como Shell Plc, BP Plc e TotalEnergies SE, que não apresentaram nenhuma oferta.
Buscando Segurança no Gás: A Conexão Argentina-Bolívia
Enquanto a exploração de petróleo avança, o Brasil também se movimenta para suprir sua demanda de gás. Embora o mundo esteja se voltando para fontes renováveis, o consumo de gás no Brasil ainda representava cerca de 12% da matriz energética em 2020. Com a produção local estagnada, a nação buscou a Argentina.
A Argentina informou que começou a fornecer gás ao Brasil através do extenso sistema de gasodutos que corta a Bolívia. No entanto, a Bolívia estabeleceu um preço pelo transporte do gás essencial através de seu território, complicando uma relação historicamente tumultuada entre as três nações, que enfrentam seus próprios desafios econômicos e políticos.
Testes Operacionais e o Potencial de Vaca Muerta
A argentina PlusPetrol relatou que iniciou a exportação de GNL (Gás Natural Liquefeito) da vasta reserva de Vaca Muerta, na bacia de Neuquén, através da Bolívia, para a empresa brasileira Petrobras Operações SA (POSA). A POSA confirmou a importação de 100.000 metros cúbicos (m³) de gás, um teste para avaliar a eficiência técnica e comercial da operação.
Sob os termos atuais do contrato, que são voláteis, a Petrobras pode importar até 2 milhões de m³/dia. A empresa brasileira tem interesse direto no sucesso da operação, já que detém uma participação não operada de 33,6% no campo de Rio Neuquén, na Argentina.
O Desafio das Altas Taxas de Trânsito Bolivianas
A Argentina anunciou publicamente seus planos de expandir as vendas de gás ao Brasil até o final da década. Contudo, para isso, precisará navegar pelas altas taxas de trânsito impostas pela Bolívia, que se posiciona como intermediária na operação. Atualmente, a Bolívia cobra entre US$ 1,40 e US$ 1,90 por MMBtu para transportar o gás pelos 1.200 km de seu território.
Daniel Ridelener, diretor-geral da Transportadora de Gas del Norte, da Argentina, alertou que, se a Bolívia não estiver disposta a negociar suas taxas “exorbitantes”, a operação pode ser forçada a procurar uma rota de transporte alternativa. “Este preço final não depende tanto da Argentina, mas da Bolívia e do Brasil”, destacou Ridelener. O acordo avança, mas as três nações precisarão negociar um pacto que beneficie a todos e promova a cooperação no setor.


